São Jorge dos Ilhéus, 10 de agosto de 2012.

Carta a JORGE AMADO.
Olho-te agora pelos olhos do tempo, sentindo pulsar no meu peito teu coração grapiuna, teu coração de terras imaginárias, terras do sem fim. Corro pela tua rua em direção a Catedral, e vejo-te menino olhando o mar no cais da minha imaginação.
Ah Jorge, em ti naufraguei na baía dos sonhos, subindo as ladeiras do Pelourinho, comendo moquecas na Ribeira, e encontrando nos botequins teus personagens. Cada roça de cacau, cada onda na Baía de Todos os Santos trazem do ontem a inspiração de quem viveu no meio do povo preto e pobre da Bahia. Pois tu eras preto na essência das palavras, negro como as noites de tempestades onde os saveiros gemiam ao sabor das ondas, no ímpeto de alcançar um porto perdido entre os mangues do meu Recôncavo.
Jorge, tu me fizeste crer na onda revolucionária nascida nos trapiches de Salvador. Tu me fizeste acreditar nos seres imaginários, e na presença mística dos teus personagens, viajei terras, aportei em portos nascidos da tua imaginação sem limites e fim.
Em ti Jorge descobri que brancas e pretas, prostitutas e damas são filhas do mesmo Deus, e que muitas vezes mamaram em seios iguais. Foi te descobrindo Jorge que derrubei preconceitos, me fiz poeta, parindo da mente um grito libertário trazido dos subterrâneos da liberdade. Deste-me um olhar aguçado para as coisas da Bahia, e viajei mares, atravessei de Salvador para Itaparica, para depois abraçar-me nas águas do Paraguaçu, bebendo dos seus afluentes a água doce e pura, que saciou toda sede do meu coração em busca de novos caminhos.
Como me descobri nos teus livros, como sonhei pelas noites de lua cheia nas tocaias das fazendas dos frutos de ouro, ou nos saveiros trazendo e levando notícias do Porto de Salvador aos rinções do Recôncavo.
Contigo Jorge, vi o amor de Dora, a revolta de Volta Seca, a liderança de Pedro Bala, e os coronéis da velha Ilhéus, ditando normas com seus jaguncos, suas armas de repetição matando pelos simples prazer de matar.
Deste-me o prazer de conhecer a Bahia negra, os afoxés, os encantos da Montanha, e viajei nos jogos de azar do Tabaris. Foi em ti Jorge, que descobri que também sou negro, sou mistura e todo dos pedaços do Recôncavo libertário, do meu Recôncavo, que ainda canta nos sambas de roda: o vapor de Cachoeira não navega mais no mar, ou: eu moro em Jacabina, Cachoeira é minha terra, Cachoeira…Ah Jorge só em teus livros a Bahia renasce, cresce, derrubando dogmas para depois se ver livre, negra e bela nas águas, nos sobrados, nas vielas que soubestes cantar.
Em ti, Amado Jorge, vi a essência da gente bamba da Bahia, pois tu também fostes bamba, como Quincas Berro d’Água, os capoeiristas  os moleques e vadios com alma em festa, descendo as ladeiras, entrando no mar, mergulhando nas águas límpidas da grande Baía de Todos os Santos.
Na minha caminhada para o futuro levo nas palavras e letras um pouco do teu muito,
e vou aportando em espaços abertos por ti, e agora refeitos na luz da tua poesia em festa.
Um abraço Jorge, daquele que veio do Recôncavo para encontrar em São Jorge dos Ilhéus tua casa, tua fala ecoando do centro até o Pontal, para depois encontrar nas águas de Olivença o sonho comum de tua gente, e despejar nas praias de areias brancas um grito de liberdade.
Com a paz da minha poesia em festa,

PAULO CÉSAR MATOS MACHADO