Nem Jean Paul Sartre conseguiria explicar a solerte manobra da Câmara dos Deputados aumentando para quase R$ 4 bilhões o tal Fundo Eleitoral, que o jornalista Claudio Humberto classifica de “Fundo Sem Vergonha”.

Justo agora que os nobres representantes do povo anunciam que vão cuidar da “agenda social”. Começaram bem. Quantas creches, quantos hospitais, quantos postos de saúde, quantas escolas, quantas vidas poderiam ser salvas se este dinheiro fosse aplicado em saneamento básico, por exemplo?

Como diz Janaina Paschoal, coautora do histórico pedido de impeachment de Dilma e de uma das várias proposta para remover Gilmar Mendes do STF, “tirar dinheiro da saúde e da educação para colocar em partidos é pedir uma revolução popular”.

Já que a farinha é pouca, meu pirão primeiro, não é mesmo?

Que se lixem os cidadãos que pagam por essas indecências.

Há que se levar em conta que a toda essa grana se junta o tal Fundo Partidário, que deverá chegar perto de 1 bilhão.

Estamos beirando os 6 bilhões de reais para custear as campanhas municipais do ano que vem. Dinheiro nosso, é claro, que os “nobres” congressistas dele se apoderam sem o menor pudor, enquanto o país enfrenta todos os tipos de mazelas, como na educação, conforme dados agora revelados pelo PISA, que nos coloca numa situação lamentável e vergonhosa.

É incrível constatar a falta de sensibilidade dessas pessoas. É claro que a culpa é toda nossa, já que fomos nós que os colocamos lá com o nosso voto obrigatório. Parece que a tal renovação consagrada nas eleições de 2018 não produziu os efeitos desejados, pois tudo continua como dantes no quartel do Abrantes.

É um cenário mais do que surrealista: é estarrecedor.

Vocês já se deram conta que o Brasil tem mais deputados federais que os Estados Unidos? Aqui são 513, lá são 435. A população norte-americana é de 327 milhões, a nossa é de 209 milhões. O PIB deles é 10 vezes maior do que o nosso: 20 trilhões versus 2 trilhões de dólares. O Brasil tem o segundo Congresso Nacional mais caro do mundo, atrás apenas do norte-americano, segundo dados da União Interparlamentar, organização internacional que estuda os legislativos de diferentes países.

Cada um dos 513 deputados brasileiros e dos 81 senadores custa mais de 7 milhões de dólares por ano – seis vezes mais que um parlamentar francês…

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, propôs durante a sua campanha reduzir o número de deputados federais de 513 para 400. Ele argumentou que os deputados “custam caro” e têm “muitas mordomias”.

Conseguiu?

Vai conseguir?

Claro que não.

Vocês acham que os parlamentares brasileiros vão cortar na própria carne, vão diminuir o tamanho da boca, eles que até 2013 tinham 14º e 15º salários, mesmo levando em consideração os problemas que o Brasil vem enfrentado?

Nem pensar.

O fato é que esta conta é impagável.

Afinal, estas e outras barbaridades perpetradas contra o erário público são “direitos adquiridos”…

Isso sem falar nas assembleias estaduais e nas câmaras de vereadores, inclusive de 1.217 municípios com até 5 mil habitantes e absoluta insustentabilidade financeira, cuja  extinção está sendo discutida.

Mas os absurdos continuam pululando. O TCU aprovou licitação para compra de refeições com lagostas e vinhos pelo o Supremo, tem promotor afastado e investigado na Lava Jato recebendo mais de 500 mil reais de salário e outras guirlandas, enquanto os 360 desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo planejam construir uma nova sede para abriga-los ao custo de R$ 1,2 bilhão. Ao mesmo tempo em que o TCU aprova licitação de refeições com lagosta e vinhos para o Supremo.

Todos se lembram do que aconteceu com a construção da nova sede da Justiça do Trabalho em São Paulo, que foi objeto de corrupção desenfreada que levou à prisão, entre outros, o Juiz Lalau, então “ínclito” presidente da Corte.

Como geralmente a história se repete, o risco é grande…

Sendo o Brasil campeão de surrealismos, não custa recordar que o Banco Central acaba de “reduzir” os juros do cheque especial para módicos 8% ao mês, 151% ao ano, 10 vezes mais do que pagam os portugueses ou os espanhóis.

Enquanto isso os grandes bancos brasileiros têm lucros indecentes de quase 7 bilhões de reais por trimestre.

Se Sartre estivesse vivo, sem dúvida nenhuma seria meu candidato em 2022, para presidente, ditador ou imperador, já que a sua filosofia está incorporada por setores dominantes do nosso estranho mundinho político e empresarial.

Está na cara que a maioria dos nossos parlamentares concorda com o pensador francês: “nascemos para satisfazer a grande necessidade que tínhamos de nós mesmos”…

Pelo menos até que a revolução da Janaina se torne realidade.