Até há bem pouco tempo, se alguém se declarasse de direita nas redes sociais, podia se preparar para ser insultado, achincalhado e enxovalhado. O mínimo que se podia esperar era receber os rótulos de retrógrado, reacionário ou de fascista; era um meio seguro de perder amigos virtuais. Se dissesse isso no mundo real, num restaurante ou até mesmo na Câmara dos Deputados, por exemplo, poderia ser acusado de racismo e homofobia, além de receber ameaças, podendo até ser cuspido, mesmo que legitimamente investido de cargo parlamentar. Exagero? Que nada! Aconteceu.

Por outro lado, dizer-se de esquerda era sinônimo de progressismo: era ser descolado. Funcionava como uma espécie de senha, de palavra de passe para acesso aos ambientes mais intelectualizados, mesmo para as pessoas incultas e limitadas que, apesar de o serem, eram recebidas com benevolência. Declarar-se de esquerda conquistava simpatias, abria portas e sorrisos nas reuniões da “esquerda caviar”, essa que se sempre se refestelou nas benesses e privilégios de cargos bem remunerados e favorecimentos à custa do Erário. Enfim, ser de esquerda era a certeza e a garantia de aceitação social.

No ambiente acadêmico, ser de esquerda era essencial para garantir boas avaliações; no mundo artístico nem se cogitava que alguém pudesse não ser adepto do socialismo; no funcionalismo público, fazer campanha e votar em partidos de esquerda era quase um dever de ofício. No jornalismo, ficava ainda melhor quando a declaração de posição política viesse acompanhada de citações pontuais de Gramsci e Noam Chomsky. É claro que para dar consistência e credibilidade às convicções ideológicas, era fundamental mostra-se apoiador da agenda feminista e da Escola de Frankfurt, especialmente em relação a temas como o aborto, à ideologia de gênero, o apoio aos movimentos LBGT, à escola crítica de Paulo Freire, liberação das drogas e aos movimentos ditos “sociais”.

Declarar-se de centro era pedir para ser olhado com desconfiança e ser tratado com ostensiva indiferença e desprezo, pois havia a suspeita que se tratava apenas de um “fascistóide” enrustido, sem coragem de sair do armário ideológico. E ai de quem se atrevesse – mesmo se declarando de centro – defender o liberalismo econômico, o aprimoramento das relações com os Estados Unidos ou deixar de condenar as políticas de autodefesa de Israel.

O que criou essa quase unanimidade de pensar foram os 35 anos de catequese a que todos nós fomos submetidos pela persistente aplicação das doutrinas gramscistas que aparelharam e instrumentalizaram praticamente todas as instituições. Foram quase duas gerações subordinadas a orientações ideológicas devidamente estruturadas e alicerçadas em argumentos que se tornaram convincentes na medida em que não havia contradição ou divergência, pois tudo era apresentado como lógico e justo. Como não aceitar que o país padeceu sob os “anos de chumbo” do regime militar? Como não acreditar que guerrilheiros lutaram árdua e bravamente contra a opressão e pela Democracia? Como não aceitar que o capitalismo é a razão de todos os males e desigualdades? Como não culpar patrões movidos pelo lucro pelo desemprego eventual ou pelo consumismo? Como duvidar da exploração de empregados pelo empregador não estatal? Como não concordar que cada pessoa que enriquece o faz à custa da miséria de alguém? Como não aceitar as diversas dívidas históricas com as “vítimas da sociedade”? Como não rejeitar os valores conservadores que representavam a antítese do pensamento libertário, da livre expressão de individualidade e da legítima rebeldia? Afinal, bom mesmo seria um mundo sem países, sem fronteiras, fraterno, igualitário e sem religiões com suas regras moralizantes, tal como pregara John Lennon em “Imagine”, e que somente o socialismo poderia oferecer. Essa doutrina falaciosa, mas sedutora, calou fundo no coração da juventude idealista, que se deixou guiar mais por idéias de igualdade utópica do que por considerações realistas e práticas.

Entretanto, os governos de esquerda, acreditando-se encastelados num apoio incondicional da sociedade, acabaram, pelo hábito da vilania sem pudor, evidenciando sua verdadeira natureza e aos poucos a população foi percebendo as incoerências entre o discurso e a prática. Quando a institucionalização da corrupção como método de governo passou a ser escancarada, a população começou a entender que o projeto de poder em curso objetivava mais a criação de uma nova aristocracia de burocratas e políticos que o real bem estar da sociedade. As mentiras, as eternas promessas jamais cumpridas, o uso abusivo e descabido dos recursos públicos, os favorecimentos escandalosos e o inchaço crescente de um Estado obeso, ganancioso e perdulário, resultaram num sentimento generalizado de frustração e decepção. Ficou evidente que o tão decantado socialismo não passava de uma enorme mentira e que também não daria certo aqui como não deu onde quer que tenha sido tentado.

Esse sentimento de frustração foi gradativamente ganhando força junto à população. No princípio de forma tímida, mas na medida em que as vozes que se manifestavam não eram ouvidas, o expressar-se foi ganhando corpo e intensidade com bater de panelas, presença nas redes sociais como canais de informação, opinião e mobilização, acabando por ganhar as ruas para não mais sair. E os valores que pareciam apagados, até mais que esquecidos, começaram a voltar com novo vigor: a valorização da família, a ordem, o senso de dever e de justiça, o desejo de progresso, o patriotismo, a intolerância com a criminalidade… E, quase de repente, a população tomou consciência que sua natureza, sua alma, se identificava muito mais com o conservadorismo ordeiro do que com o progressismo bandalho.

As esquerdas ironizaram e desdenharam essas manifestações. A imprensa alinhada, valendo-se de dados evidentemente enganosos, tratou de minimizar as manifestações, convicta da própria capacidade de influenciar e manipular a opinião pública. Não funcionou.

Nesse meio tempo, surgiu o candidato Bolsonaro que soube melhor que qualquer um ouvir e entender os anseios desse recém desperto contingente de pessoas, dessa maioria até então silenciosa. E contra todos os prognósticos de institutos de pesquisas, contra o ceticismo dissimulado das esquerdas presunçosas, contra a oposição de artistas e intelectuais do esquerdismo, contra a opinião de analistas políticos e da imprensa alinhada, Bolsonaro se elegeu presidente, sem um decisivo apoio partidário, sem tempo nos meios de comunicação, sem recursos das campanhas milionárias, mas com um discurso sincero, um jeito simples e sem qualquer mácula significativa em uma vida pública de quase 30 anos. Um fenômeno como jamais se viu em nossa história.

É evidente que na medida em que a campanha de Bolsonaro ganhava adesão e força, o receio de seus opositores era de que o pesadelo deles se tornasse realidade: qualquer coisa servia desde que não fosse um representante da direita no poder. E tramaram sua morte, acreditando talvez que a extinção física da personificação de um mito iria apagar na população a chama dos desejos por mudanças e a rejeição ao esquerdismo. Ele sobreviveu, felizmente. Com a saúde ainda abalada, tomou posse.

Desde o primeiro dia da nova gestão, ficou evidente que a oposição seria rasteira, torpe e implacável. E é exatamente isso que acontece há nove meses. A população, porém, cada dia mais atenta, está vendo e reconhecendo como caluniosas essas tentativas de desestabilização do país, bem como o esforço vil que fazem para impedir a governabilidade. No devido tempo, a resposta a isso virá.

Parece que quase todas esquerdas não assimilaram e nem entenderam ainda o que realmente aconteceu no país. Não entenderam que a velha forma de fazer política está esgotada e que o maior cabo eleitoral de Bolsonaro foi décadas de afronta aos anseios da população que eles, esquerdistas de convicção ou corrupta conveniência, nos impingiram. Não são capazes de compreender que a simplicidade e sinceridade de Bolsonaro, a quase ausência de apego à formalidade do cargo, a austeridade nos hábitos, a firme reafirmação de valores e de uma escala de valores, o patriotismo, o senso de dever e a capacidade de se rever são exatamente as qualidades que queremos e esperamos que permaneça como modelo daqui para frente.

Entretanto, um novo fenômeno começa a surgir e a gente já nota isso nas redes sociais de Internet. Os velhos comunistas não mais se declaram assim: hoje dizem que são socialistas, como se isso fosse coisa menos grave. E até aqueles que até recentemente se ufanavam do esquerdismo, começam a se declarar de centro e a negar – convenientemente – que a dicotomia esquerda – direita representa a realidade política do país, dizendo-se “sociais-democratas”. Para eles, essa negação funciona como uma defesa, pois jamais poderão admitir a derrota para a direita.

É o limite do ridículo.

Laerte A. Ferraz, 31/08/2019, para Vida Destra