Transitando entre o capitalismo e o comunismo, a China é um espanto


AG André Gustavo Stumph*

postado em 26/06/2019 16:11

A China vive o dilema de estar entre o capitalismo e o comunismo
(foto: AFP/ Nicolas Asfouri)

Conheci Pequim no mês passado. Fiquei lá por duas semanas. Com mais de 20 milhões de habitantes, para onde se olha a paisagem, é impressionante. Prédios enormes, de estilos variados, avenidas largas, trânsito ao mesmo tempo caótico e organizado, segurança absoluta, um guarda em cada esquina, cidade limpa, arborizada, cheia de canteiros, inclusive de rosas. Não há mendigos, pedintes ou coisa parecida. Transportes pessoal e coletivo impecáveis. Metrô, ônibus elétricos, articulados, além de Ferrari, Tesla, Rolls Royce e tudo que há de melhor no mundo passeia pela cidade. As pessoas são vestidas normalmente. Simpáticas, alimentadas. Vida noturna, do pouco que conheci, rivaliza com qualquer cidade do Ocidente. Enfim, a China com seu capitalismo comunista é um espanto.

Impossível não se lembrar do ocorrido há 45 anos. Na qualidade de repórter, assisti, em Brasília, à solenidade de restabelecimento de relações diplomáticas entre Brasil e China, em 1974. O ministro de Relações Exteriores era Azeredo da Silveira, o Silveirinha, seu assessor de imprensa era Luís Felipe Lampreia, os dois já falecidos. Naquela época, o produto interno do Brasil tinha valor superior ao da China. Hoje, não há comparação. Os chineses já são a segunda economia do mundo, na frente de Alemanha e Japão. Devem alcançar o primeiro lugar dentro de no máximo 20 anos, para desespero dos norte-americanos. O Brasil parou.

Antes de viajar, li o espetacular trabalho de Henry Kissinger, Sobre a China, editora Objetiva. Quem quiser estudar o Império do Meio deve começar por brilhante estudo sobre a personalidade do chinês, a maneira de agir e dos objetivos de seu governo. O país possui o maior exército do mundo (2,5 milhões de soldados), mas não é beligerante. Gosta de projetar seu poder. E, nos últimos 20 séculos, em apenas dois deixou de figurar como a maior economia do planeta. Precisamente nos séculos 19 e 20, quando se abriu para os estrangeiros. Obra interessante também é O homem que amava a China, de Simon Winchester, Companhia das Letras, que trata da fantástica história de Joseph Needham, excêntrico cientista inglês que desvendou os mistérios do Oriente. Produziu obra notável, de sete volumes, Ciência e civilização na China, publicada por Cambridge University Press.

Tanto Kissinger quanto Needham insistem em que tudo o que se chamou de moderno depois do fim da Idade Média no Ocidente já existia na China há séculos. O ábaco, uma máquina de calcular, é coisa de 2 mil anos atrás. Pólvora, bússola, instrumentos de navegação são conhecidos naquelas bandas há muito tempo. Aliás, os chineses iniciaram as grandes navegações. No século 15, chegaram à África. Alguns historiadores sustentam que eles alcançaram a costa oeste do atual Estados Unidos. Projetar um futuro radioso é a tarefa do presidente da China, o poderoso Xi Jinping. Ele estima que, até 2040, não haverá um chinês pobre. É por essa razão que eles lançaram um programa chamado Belt and Road — cuja melhor tradução seria a nova rota da seda.

O projeto é investir pesadamente em obras de infraestrutura, portos, ferrovias e rodovias, para alavancar monumental corrente de comércio cujo epicentro venha a ser a China. Ou seja, ligar a Europa à Ásia. E o resto do mundo, por gravidade. O Brasil entra nessa operação como fornecedor de alimentos e matéria-prima. E também como importador. A China tem 21% da população mundial. Sua receita é crescer sempre, sem perturbação social. Seria perder tempo. É fundamental criar empregos e lutar contra a poluição (em Pequim, as pessoas usam máscaras). O regime político é de partido único, que implica jornal único e pensamento único. Tudo isso, passado, presente e futuro, fazem da China o grande enigma dos nossos tempos. Aqui, nesta desolada esquina do mundo, nos resta observar de muito longe (são 23 horas de voo) o fenômeno.

* Jornalista