Eduardo Kruschewsky

Adorava quando ia para a fazenda! Molecote, respeitadíssimo em Ilhéus por suas aprontações, capaz de quebrar um globo de luz das praças ilheenses, apenas com um caroço de mamona.Era um ás no bodoque e o terror dos adversários nas “batalhas de turma” quando se engalfinhava com outros meninos por mera disputa para ver quem era o melhor, “porradeiro” como ninguém, diziam… Aprendeu com o velho Dete, mestre na arte, a pegar passarinho no alçapão. Era chegar na roça e preparava a armadilha que colocava no meio do mato. Do velho roceiro, assimilou, também, a capacidade de ficar horas inteiras, imóvel, escondido, esperando o bichinho cair na armadilha. Daí a pouco, era capaz de ouvir os mosquitos zunindo, mas longe dele. É que tinha um método capaz de evitar que os insetos o atacassem. Era “batata”: a poucos metros do sítio escolhido para a campana, defecava e, daí a pouco, atraídos pelo fedor das fezes devidamente mexidas pelo peralta, os incomodativos companheiros de espera iam para os excrementos,esquecendo-se dele. Menino criado no interior, sabia de cor e salteado, as histórias de lobisomem, mula sem cabeça e outros seres mitológicos que se hospedavam nas fazendas de cacau da sua Ilhéus. Assim, mesmo meio descrente, não custava nada e, pelo sim pelo não, quando ia caçar ou passarinhar, colocava um pedacinho de fumo num toco, em oferta à “Comadre” (também chamada de caipora). Diziam os velhos caçadores que ela gostava de pitar seu cachimbinho e, distraída, “esquecia” de encantar os caçadores…Por vezes, os danadinhos demoravam de vim buscar o pedaço de banana ou a casca de abacaxi, dentro do alçapão e o garoto, orientado pela altura do sol, via que chegava a hora do almoço… Levantava, apressado e mesmo gostando de ficar ali, misturado com a natureza, não podia se atrasar: Nenem, a cozinheira,que ajudara a criar ele e os irmãos, sabia onde estava e, com certeza, viria buscá-lo e o levaria pendurado pela orelha… O menino, então, metia dois dedos na boca e deixava sair dali cantos maviosos de bem-te-vis, curiós, assanhaços, uma verdadeira passarinhada. Era supimpa e infalível! Daí a pouco, dois, três, muitos passarinhos eram atraídos e caiam fácil, fácil na armadilha. Em tom de mofa, para não se dar por vencido,costumava dizer que não tinha orelha para negra desassuntada nenhuma puxar. Mas, tudo de molecagem, pois adorava a negra retinta que sempre lhe enchia de mimos e que contava histórias na hora de dormir, com trejeitos e entonações de voz, fazendo tudo parecer verdadeiro.Os muitos pássaros capturados eram comercializados com outros meninos, ou dava ao pai de presente, já que o “velho” gostava de cuidar de aves e gaiolas.

Sua mãe era ótima! Extremosa, preocupada com sua ninhada, era um verdadeiro escudo nas sessões cinto no lombo (surra de cinturão) ou de palmatória, patrocinados pelo pai, nos momentos de ira paterna pelas estripulias. Ah, a palmatória! Êta, sujeita danada de perversa! É, com certeza, culpa dela a sua calvice de agora. Com certeza lhe faziam falta os muitos cabelos que arrancara pela raiz para ver se a cruel rachava, sem sucesso… A “velha”, um anjo de candura, dava sempre um jeito de passar os pequenos trocos, omitidos ou surrupiados do marido, para as crianças, certa de que elas iriam comprar “queimados” (doces) ou mariola. Qual o quê! Ele, Ednardo, o mais esperto de todos, sempre dava um jeito de “filar” alguma bala e ia juntando, juntando as suas moedinhas até que o dinheiro dava para comprar os“catecismos” de Carlos Zéfiro na banca de jornal de Rubem “Zói de Gude”. Graças ao fato, a sua sensualidade aflorou muito cedo e, donzelo, as revistinhas serviam de motivação para o sexo individual… 

Namoradas, teve poucas, contava-as nos dedos. Lembra bem, embora fosse a mais antiga, a primeira, escondida lá no passado: Edith, uma lourinha que estava sempre impecável com seus cabelos amarrados, lateralmente, com duas fitas multicoloridas. Era sua colega do primeiro ano primário. Ela mal abria a boca na escola, nem olhava para ele, e era a namorada do moleque sem saber… Já decidira: era ela que mostrava, orgulhoso, aos outros e pronto! Não fazia questão que Edith soubesse disto, bastava ele próprio saber, tinha amor para dois. E foi por causa dela que, até hoje a terceira idade, toda vez que olha para o braço esquerdo recorda a infância e aquele famigerado dia…

Toda tarde, saia de sua rua e ia para Rua da Linha, assim chamada porque por ali passava a Maria Fumaça que ia ou vinha, passando pela Estação do Rio do Braço, parando em Uruçuca, que naquela época de chamava “Água Preta”, até Poiri. Dali em diante, não sabia para onde a estrada de ferro ia,porque embora o destino final fosse Vitória da Conquista, os trilhos nunca chegaram  lá…Sua saga de menino aventureiro, viajante de trem, nunca o levara além da Estação Rio do Braço, onde passava dias e, de maneira especial, o São João fantástico na fazenda do tio Alcides. Aquele trecho de Ilhéus até ali sabia detalhar, tamanha a intimidade que tinha com a paisagem que passava pela janela do vagão em que viajava.

Era na Rua da Linha que se encontrava com Ivo. Este morava numa casa de andar na esquina da Praça Coronel Pessoa com a Rua da Linha (Rua Tiradentes). Ele chegava, assoviava e, daí a pouco, num tropel, Ivo descia as escadas e ganhavam a rua. Mas, não iam distante. Invariavelmente só até a Praça Cayru onde esperavam o trem sair da estação e resfolegando partir. Correndo, em alegre galhofa,se penduravam nos degraus de subidas dos vagões e só saltavam quando a composição, até ali vagarosa por causa do movimento da cidade, começava a ganhar velocidade já na Cidade Nova, na altura do cruzamento com a Avenida Canavieiras. Depois, voltavam em desembalada carreira. Ednardo, quase que como um ritual, fazia questão que eles se exibissem para Edith. A menina morava ali próximo e, curiosa, ficava sempre a observar aqueles meninos mais bobos, mais parecendo uns macaquinhos, escalando o muro de proteção da Ladeira da Vitória, com que finalidade não sabia…

Certa ocasião, depois de dias de chuva intermitente, depois da aventura da “ponga” nos trilhos, ali estavam os “valentes” alpinistas fazendo a escalada, observados pela menina. Ednardo, então, resolveu ir mais alto do que, habitualmente, subiam. A altura mais prudente era em torno de dois metros, no máximo.  Ivo, que, mal começara a escalada, escorregou a mão numa pedra com limo e quase caiu. Assustado, desceu e ficou a observar o amigo. O exibido, dando uma ligeira parada para recuperar fôlego, ao olhar para a “namorada”, resolveu mostrar que, além de escalador, era também super-herói, transformando-se, de repente, no Capitão Marvel. Gritando a palavra “Shazam”, resolveu voar. E atirou-se no espaço. Foi sua perdição! Estatelou-se na calçada, caindo por cima do braço, a munheca dobrada pelo peso do corpo. Sofreu fratura exposta e levaram-no, nos braços mesmo que era perto, no meio da ladeira, para o Hospital São José. Até hoje lembra com vergonha e mágoa da cara de espanto da menina e, depois, quando o Capitão Marvel abriu o berreiro, ela começou a gargalhar bem alto, rindo da sua miséria. Foi o mais doloroso de tudo….

Braço engessado, depois de devidamente limpos e desinfetados os arranhões, foi obrigado a ficar com o braço na tipoia durante quase dois meses. Com o passar dos dias, percebeu que, ao movimentar os dedos, doía um pouco e veio o medo de não ficar bom nunca! Covarde, ficou sem mexer os dedos que ficaram numa posição engraçada: o polegar meio levantado, o indicador em riste e os outros três dobrados. Dentro em pouco, não mais tinha movimentos na mão pois a musculatura ficou dura. Passou a ser chamado de “braço de revólver”. Sem dizer nada aos médicos ou enfermeiras, começou a sentir coceira dentro do gesso e, sem consultas a ninguém, passou a usar um prego enorme para se coçar. Dentro em pouco, o braço passou a feder e ele a arder de febre, passando as madrugadas a coçar o ferimento com o prego e delirando pensando em Edith, a suposta ingrata que nem lhe visitar não viera… Aberto o gesso, constatou-se: o prego havia ferido a pele e, com isto, a carne tornou-se putrefata, por pouco não tendo uma gangrena…Mas, vivia-se uma época de poucos avanços médicos e foi obrigado a ter o braço engessado, sendo o gesso substituído semanalmente por causa das feridas. Quando, finalmente, terminou o troca-troca de gesso, começou o tormento da fisioterapia que consistia em ter os dedos endurecidos puxados pelas enfermeiras, diariamente, provocando enormes dores até que, vagarosamente, começassem os movimentos. Agora,recorda, o mais frustrante de tudo: o seu sofrimento foi em vão, pois se acidentou por causa de uma garota que nunca ligou para ele e que, depois de fazer pouco caso do seu desastre, ainda foi embora da cidade acompanhando o pai, engenheiro da estrada de ferro, transferido para o trecho de Poiri, onde passou a morar. Nunca mais a viu…

Mas, a desilusão amorosa durou pouco e a menina metida a besta foi esquecida devido à enorme capacidade de criar e acabar sonhos que a infância nos concede. Recuperados, integralmente, os movimentos do braço, lá estava ele jogando gude, atirando pião e revelando-se “cobra” nos jogos de triângulo onde ganhava que aprisionasse o adversário dentro de suas linhas. O tempo virou as páginas da sua história de vida e, de calças curtas ainda, foi preparado por dona Horizontina Conceição, a professora solteirona da Escola Afonso de Carvalho, quase tísica na sua magreza, mas de uma capacidade de ensinar enorme. Seus alunos eram aprovados “de primeira” nos exames de admissão do IME, Convento Piedade e até mesmo em Salvador, inclusive no Colégio Militar da Bahia, o exame mais difícil que existia… Fez o ginasial no IME, não se antes passar por um curso preparatório para o Colégio Militar, o pai querendo discipliná-lo, “menino mais perigoso, meu senhor!”… Mas, inútil!  Foi expulso de um colégio interno, fugiu de outro, um azougue! Dava sempre um jeito de retornar à sua Ilhéus. Terminou vencendo a queda de braço, depois de tudo fazer para não ficar longe dos seus “babas” de praia, das brincadeiras noturnas de “soldado-ladrão” e, até mesmo,das pirraças aos doidos da cidade, fazendo galhofa da ira insana de Gabi cadê Buzú, Buraco, Aluvaiá, Noronha e tantos outros…

Saiu da cidade muito cedo, aos 22 anos, aprovado em concurso do Banco do Brasil, indo trabalhar em Ubaitaba. Às vezes, quando batia o banzo, ficava pitando um cigarro, olhando o Rio de Contas, por vezes pensando loucamente em atirar-se nele para ir encontrar as águas do Atlântico tão presentes na sua vida…

Nessas horas de solidão e avivamento de sua Ilhéus, o trem sempre vinha à sua mente. Mesmo agora, já idoso, com crises de esquecimento. Como esqueceras “pongas” que pegava da saída da Estação Central? E as fagulhas que saiam das lenhas colocadas para esquentar a caldeira e dar pressão à máquina de ferro? Estas voavam em profusão e quem quiser que se protegesse porque se facilitasse era roupa queimada na hora e as pernas em calças curtas e braços nus recebiam pequenas queimaduras… Ah, Ilhéus já não era mais a mesma cidade de tantos encantos, mistérios e histórias que fizeram a fama de Jorge Amado no mundo todo! Pensou, nostálgico:

“-Foi-se o encanto da velha ferrovia que, por 52 anos, deu vida à região cacaueira, de modo especial para ele, a Rio do Braço e sua estação. Não mais se ouve nas casas de fazenda e nas roças o anúncio alegre do apito da Maria Fumaça. Este é o preço que se teve que pagar pelo progresso… Um progresso que sepulta os belos dias de ontem, sem conseguir matar as lembranças que haverei de carregar para sempre em meu íntimo… Sim, porque ainda há pouco vi dentro de mim, numa estrada de ferro construída em meus sonhos, uma Maria Fumaça , “Piu-ui, piu-ui” – recém-chegada na estação da minha saudade, proveniente do meu Rio do Braço “…

Macambúzio, melancólico, com olhos marejados, deixou de mirar a catedral de São Sebastião, e levantando-se do banco da praça, com dificuldade, apoiado na bengala, saiu caminhando sem destino, falando sozinho. Ia acompanhado dos fantasmas do passado e disposto a viver mais uma aventura nas ruas de Ilhéus…