Por: Tostão.

Tentamos simplificar o futebol com nossas teorias, racionalidades e explicações técnicas

Sou a favor das biografias não autorizadas, com responsabilidade, mas penso que todas, consentidas ou não, principalmente as autobiografias, são misturas de suposições com fatos, de racionalidades com autoenganos, de realidade com ficção, mesmo quando feitas por profissionais sérios e competentes.

É impossível saber o que se passa nas entranhas de nossa natureza, de nosso DNA e nas profundezas de nossa alma, de nossos desejos e de nossas atitudes.

Os grandes talentos, em todas as áreas, são especiais por suas obras. Os leitores não deveriam ficar surpresos nem decepcionados com suas biografias. Eles são humanos. Acertam e erram como todas as pessoas. Uns mais que outros.

Várias biografias contariam, de maneiras diferentes, o ridículo pênalti batido por Pato contra o Grêmio. Ele cobrou daquele jeito muito mais por soberba, por se achar um craque, que ele não é nem nunca foi, do que por displicência ou por irresponsabilidade.

Em 16 de janeiro de 2008, escrevi, após sua estreia no Milan: “Pato é um bom exemplo da sociedade do espetáculo, à procura de celebridades. Já é tratado como uma estrela, um grande craque antes de ser, antes de fazer 30 partidas, antes de marcar 30 gols, antes de ser convocado para a seleção principal, antes de ser vaiado e chamado de pipoqueiro, como foi Kaká no São Paulo, e antes de perder o sorriso de menino”. Pior, Pato acreditou em tudo o que diziam dele. Nunca mais saiu do lugar.

Mudo de assunto. Vimos no fim de semana, mais uma vez, muitos gols por jogadas aéreas. É uma qualidade importante, desde que não seja a principal estratégia de uma equipe. O Bayern, comandado por Guardiola, um técnico que gosta de jogo bonito e bola no chão, fez três gols, no sábado, em lances pelo alto. Uma deficiência do Barcelona são as jogadas aéreas, na defesa e no ataque.

Nesses lances, a função dos técnicos é posicionar bem os jogadores na área. Os treinadores brasileiros fazem isso bem. Treinam bastante. Só pensam nisso. Mesmo assim, seus times sofrem muitos gols de bolas paradas. Se os dois zagueiros ficam muito próximos, a bola pode chegar atrás deles para o atacante fazer o gol. Se ficam muito distantes, a bola pode chegar entre eles. Não dá para prever.

A culpa não é do técnico, do goleiro nem dos defensores. Ninguém sabe aonde a bola vai chegar. O acaso é que comanda.

Nas bolas cruzadas, nem os grandes goleiros têm a segurança se é melhor sair ou ficar no gol. Se vários jogadores cruzam à sua frente, não dá para o goleiro segurar a bola, como no gol do Inter contra o São Paulo. No máximo, dava para o Rogério Ceni, no reflexo, no susto, jogar a bola longe do gol.

O futebol é muito complexo. Nós é que tentamos simplificá-lo com nossas teorias, racionalidades e explicações técnicas.