Não se assustem com o terror da situação pela qual passei hoje. Não havia como evitá-la. Prólogo: meus pássaros e micos, todos em liberdade, porém, visitantes pontuais ao cesto com frutas que disponibilizamos todos os dias na varanda para as suas três refeições; necessitava reabastecimento. Aí lá me fui à Central de Abastecimento onde, segundo dizem, as frutas são mais em conta, mas o ar é irrespirável.

Enquanto dirigia, lembrei-me de Varanasi… A Índia; do Mercado Odhag na Guiné Bissau e até da Europa antiga! Imaginem, por um momento, como eram aqueles tempos… Le chambre du roi – O quarto do rei… Não tinha banheiro! Não havia banheiros, escova de dentes, perfumes, desodorantes ou papel higiênico. Os excrementos humanos eram despejados pelas janelas do palácio!… Como ali no estacionamento da Avenida Aurélio Linhares, o Porto velho!

Mesmo assim, dirigindo com lembranças mal cheirosas ao pensamento, fui em frente, corajosamente circulando pelas ruas de Ilhéus em direção à Central de Abastecimento… A Europa… Mesmo no inverno, as pessoas eram abanadas para espantar o mau cheiro que exalava delas, pois não se tomava banho devido ao frio europeu. O primeiro banho do ano era tomado em maio! Já imaginaram?… Acelerei um pouco, levantei os vidros do carro e liguei o ar condicionado no máximo. Eu ia passar em frente à Feirinha do Guanabara! Vige!…

Os banhos eram tomados numa única tina, enorme, cheia de água quente, e o chefe da família tinha o privilégio do primeiro banho na água limpa. Depois, sem trocar a água, vinham os outros homens da casa, por ordem de idade, as mulheres também por idade, e por fim, as crianças.

Os bebês eram os últimos a tomar banho. Quando chegava a vez deles, a água já estava tão suja que era possível “perder” um bebê lá dentro.  Por isso a expressão ”don´t throw the baby out with the bath water”, literalmente “não jogue o bebê fora junto com a água do banho”… Logo à frente da feirinha, o lago negro. Foi nesse ponto que os pneus tocaram ao chorume residual da feirinha do Guanabara. Lembram-se do “banho europeu”? Pois é; meu Peugeot foi o último a ser lavado em banho indesejado na calda microbiana dos restos do Guanabara! Uma lástima. Talvez seja esta a causa dos rostos amarelecidos e tristonhos dos comerciantes dali. Um fedor de abandono apodrecido.

…Àquela época, verão na Europa, a maioria dos casamentos acontecia em maio e junho, porque o cheiro das pessoas ainda estava suportável. Mas, para esconder o mau cheiro, as noivas carregavam buquês de flores junto ao corpo, tentando disfarçar o odor que vinha das partes íntimas. Daí ser maio o “mês das noivas” e essa é a origem do buquê que carregam… Sufocado pelo fedor que se entranhou até o interior do nosso carro, literalmente sufocado, ainda pensei nos buques de flores e no perfume dos laranjais da velha Sinadidih da minha Turquia.  Desesperado, abaixei os vidros das janelas e borrifei Bom-Ar fartamente. Ficou um cheiro estranho, místico e mítico: fedia à fumaça fúnebre das margens do rio Ganges combinada com perfumes franceses manipulados no vizinho Paraguai!  Queijos Roquefort e Gorgonzola, estragados, mas fartamente desodorizados a Poison e Chanel Número 5, latinos de la gema paraguaia.

Ah!… Nossas comidas ambulantes… Nossos churrasquinhos de carne de “não sei o quê”… Nossos pastéis de anjos!… As festas europeias? Nesses dias a cozinha do palácio, (não aludi ao Paranaguá viu?), conseguia preparar um banquete para 1.500 pessoas, sem água encanada e sem a mínima condição de higiene… E eu, Mesmo assim, corajosamente com uma flanela atada sobre o nariz, segui minha peregrinação pelas ruas imundas de Ilhéus! Meus pássaros e micos valem o sacrifício. Ate as minhas roupas absorveram o “cheirinho do Guanabara” parodiando aquele “do Iguatemi”.

Nas salas palacianas, com telhados sem forro, as vigas de madeira que os sustentavam eram o melhor lugar para os cães, gatos, ratos e insetos se aquecerem. Quando chovia, as goteiras forçavam os animais a pularem para o chão e assim nossa expressão “está chovendo canivete” é o equivalente, em inglês, a “it´s raining cats and dogs” (está chovendo gatos e cachorros)… Foi assim que já às imediações da Avenida Oswaldo Cruz, acontece o pior: Atropelei um cachorro! Eu um cachorricida? Não! Trêmulo do choque e do fedor de lixo líquido; desço do carro na esperança de prestar algum socorro ao pobre cão que, para minha surpresa, ao examiná-lo enganchado nas ferragens do carro, fui então perceber que já era cadáver! Pois é! Era apenas uma carcaça em adiantado estado de decomposição; provavelmente morto ha mais de uma semana; estava ali a banquete para ratos e urubus em plena avenida! E eu fui logo me esbarrar nisso!

A nobreza e os ricos daquela época utilizavam pratos de estanho, e certos tipos de alimentos oxidavam o material, fazendo com que muita gente morresse envenenada. Também usavam copos de estanho para cerveja ou uísque e essa combinação, às vezes, deixava o indivíduo “no chão”, numa espécie de narcolepsia induzida pela mistura de bebida alcoólica com óxido de estanho. Logo Pensando que estivesse morto, os convivas preparavam o enterro. O corpo era colocado na mesa da cozinha e, por alguns dias, a família ficava em volta dele, comendo e bebendo e esperando para ver se acordava ou não. Daí surgiu o velório, que é a vigília junto ao caixão. Imaginem nossos ratos, cachorros e urubus alimentando-se sobre essas faianças em Ilhéus? Logo uma ONG tomaria as suas defesas; ainda bem que temos milhares de ONGs que se ocupam disso por nós.  

A minha peregrinação já estava próxima à Meca da imundície, a Central de abastecimento. Ali, às imediações do tamarineiro do Malhado, somos recepcionados por uma imensa revoada de cordiais urubus. Incrível, mas eles também se apercebem que o nosso carro foi banhado com águas do Guanabara e está com pedacinhos de cachorro podre, presos à ferragem. Estaciono e aguardo pacientemente que eles façam a “limpeza” espontânea.

Naquela época, na Inglaterra, com território pequeno, onde nem sempre havia espaço para se enterrar os mortos, como ocorre em Ilhéus, os caixões eram abertos, retirados os ossos, colocados em ossuários, e o túmulo usado para outro cadáver. Mas às vezes, ao abrirem os caixões, percebiam que havia arranhões na tampa, pelo lado de dentro, o que indicava que aquele morto havia sido enterrado vivo; coisa nunca constatada por aqui.

Assim surgiu a ideia de, ao se fechar o caixão, amarrar uma tira de pano no pulso do defunto, passá-la por um buraco feito no caixão e amarrá-la a um sino.  Nos dias de atuais, usariam algo mais prático, tipo um telefone celular: _ “Oi… Abre aí que estou vivo vai!”. Se o indivíduo acordasse, faria o sino tocar e ele seria “saved by de bell”, ou literalmente “salvo pelo gongo”, expressão que utilizamos até os dias de hoje… Com o Peugeot limpo a bicos e penas negras dos solidários urubus, tento dar partida no carro, mas sou instado por um senhor muito cordial: _ “O senhor está indo à Central de Abastecimento não é? Não vá não! Com este seu carro sujo e fedorento, o senhor será multado e ate o carro apreendido! As equipes de Fiscalização da Limpeza estão lá… E eles jogam duros contra qualquer sujeirinha”.

Pensei melhor: Vou não. Eles são rigorosíssimos com sujeira.

Mohammad Jamal