Por: Mehmed. 

Quando garoto, ele brincava à vontade com todos os meninos da vizinhança. Enturmava-se bem, era muito participativo e bem integrado com os adolescentes do nosso bairro à época.

Ele atingiu a maior idade tornando-se um homem alto, simpático e sempre muito educado para com todas as pessoas. Depois veio a mudança.

Uns falavam que era “mediunidade”; outros que era uma espiritualidade latente que estava aflorando. Alguns outros, mais superficialmente, julgavam-no meio “pancada” com alguns surtos noturnos de ensandecimento que o acometia invariavelmente todas às noites.

O rapaz ouvia vozes! Pontual e repetidamente todas as noites ele ouvia uma voz que não compreendia o porquê nem a sua origem. Uma voz humana vinda do nada. Um comunicado alienígena; sabe-se lá se do mundo espiritual ou de outra dimensão nesse caleidoscópio de planos dimensionais que se medram ao nosso viver.

Não esqueço a festa de casamento desse rapaz. Vamos cognominá-lo de senhor X. Foi uma festa muito bonita e concorrida. A igreja toda decorada com rosas brancas; casamento com pompa e circunstância. A noiva estava linda, toda de branco. Pena que a união não durou.

Poucos meses depois a esposa pedia a separação alegando “graves impedimentos relacionais”! Foi um choque para todos nós que sabíamos que eles se amavam de verdade. Uma pena aquela separação tão precoce e dolorida para ambos. 

Passados alguns poucos meses, tentando recuperar a perda da ex-esposa, ele conhece outra moça a quem, em pouco tempo, propõe casamento. Dessa vez o casamento foi uma solenidade un petit-comitêe; algo discreto, restrito a convidados do círculo mais intimo de amigos prediletos e parentes próximos.

Para nossa tristeza; passados três meses ficamos sabendo da separação consensual e amigável do casal, sob alegações confidenciais jamais reveladas.

Como nada permanece eternamente em segredo nesse mundo. Foi assim que participando de uma sessão espírita pra remover o encosto de um desencarnado político espírito de porco; que lá encontrei o senhor X que também buscara a cura para a tal voz anserina que tanta infelicidade causava à sua vida e união conjugal.

Vocês poderão ate aludir e reflexionar sobre consequências de problemas ligados a disfunção erétil ou até sodomia e lascívia exageradas, por parte do pobre senhor X. Nada, são ilações incongruentes sobre a realidade desse sofredor, que vou revelar. Ele mijava! É… Fazia xixi (meio fresco não?). Digamos: urinava!

Aí vocês perguntam o que e como a micção fisiológica pode afetar a vida conjugal e amorosa dum homem com 25 anos de idade? Nesse momento é que entra aquela voz anserina, alienígena ou do outro mundo, o dos espíritos. Era ela que fazia o homem mijar.

Um mijar pressuroso de consequências; deletério, amoníaco e ácido; uma afronta ao conforto do sono noturno a dois. Entenderam? Vou explicar:

_ Após assistir o Ratinho e à versão noturna do radiofônico Vila nova; o senhor X ia para a cama com a esposa e, após os costumeiros “carinhos”, o senhor X buscava conciliar-se com um sono repousante, que ninguém é de ferro. Aí é que entra em cena a tal “voz do espírito (de porco) do outro mundo”. Assim que o senhor X dormia, vinha a “Voz” onisciente e perguntava-lhe: Você já fez xixi?

Aí vinha o pior. Os esfíncteres urológicos do senhor X relaxavam espontaneamente e ele se mijava todo e a tudo profusamente ao seu redor! Uma tsunami de mijo!

Agora voltemos às ex-esposas: Quem aguentaria amanhecer toda xixilada (melhor é mijada) por urina de outrem, no inverno ou no verão os 365 dias do ano? Claro; ninguém; nenhuma mulher suportaria tamanho suplício urinário.

É evidente que todos os recursos de cura foram buscados em todos os centros das ciências ocultas e da medicina: Centros espíritas; terreiros de umbanda, igrejas ecléticas e multi ecumênicas, rezadores, benzedoras, pediatras, urologistas, sexólogos, quiromantes e até, com o perdão da má palavra, um exame de próstata com o famoso Dr. Ateotalus, e nada… Nada funcionava. A Voz persistia em britânica pontualidade.

Certo dia, condoídos pelo sofrimento do senhor X, ocorreu-nos recomendar-lhe procurar um famosíssimo psicoterapeuta (cuidava de artistas da Globais) para uma consulta e possível tratamento.

Não deu outra. O Psicoterapeuta após audição de quinze minutos do relato do “sofrimento” do senhor X; matou a charada; deu o diagnóstico e ainda prescreveu o tratamento! Eureca! Que felicidade!

O psicoterapeuta: _ O senhor sofre de um característico distúrbio pós-traumático originado na sua fase oral, que afetou seu subconsciente. Requer apenas um realinhamento e treinamento do seu subconsciente através uma terapia cognitivo comportamental adequada. Você vai gravar na sua mente a seguinte frase: “_Já fiz xixi sim; estou bem!”. Repita esta frase para você centenas de vezes ate ela fixar-se ao seu inconsciente como tatuagem. O resto será automático. Considere-se curado. A consulta custa R$1.500,00!

E o senhor X foi pra casa feliz repetindo a frase salvadora – “Já fiz xixi sim. Estou bem!”. Durante o resto do dia e início noite, ele já a havia pronunciado umas três mil vezes para si; mais que o necessário.

E foi assim para a cama, feliz, embora solitário das arredias companhias femininas amijéticas (o neologismo é nosso). Em poucos instantes de repouso, relaxado, entrou em profundo sono reparador. Logo em seguida, como de costume; pontualmente, vem a Voz inquiridora e pergunta: _ Você já fez xixi?

Quando o inconsciente do senhor X responde de bate pronto, automaticamente: _ Já fiz xixi sim! Estou bem!

… Um breve silêncio e a voz inquiridora volta a perguntar: E cocô?

O resto vocês podem imaginar…

Por: Mehmed.