Coluna A Tarde: Eleição complicou 2014
A eleição de ACM Neto para a prefeitura de Salvador tem variadas interpretações e, de igual modo, consequências diversificadas. As interpretações dependem do analista, mas creio ser possível relacionar três delas, com direto a divergências:
1- As greves dos professores e dos policiais não ficaram restritas às categorias reivindicantes. Seus reflexos atingiram a população de Salvador, como um todo, pela demora nas negociações e pela resistência oferecida pelas lideranças dos grevistas. A dos professores vinculada ao sindicalismo que tem ampla e livre movimentação no governo Wagner. O PT pagou o preço.  
2- O efeito dos comícios realizados por Lula e por Dilma no segundo turno não encontrou resposta no eleitorado pelo tom agressivo empregado por ambos e pela configuração, até, de bullying; segundo alguns. Quando a campanha de Pelegrino entendeu o que ocorria, com rejeição ao que aconteceu nos palanques, já havia divulgado à larga o que os líderes do seu “time” disseram.
3- Nos debates realizados, ACM Neto levou vantagem. Ele não é mais competente no confronto, mas é mais desenvolto e ágil do que Nelson Pelegrino. Esteve mais firme.
Há outras interpretações que dependem do observador porque, de uma maneira ou de outra, difícil é explicar resultado de urnas e de pesquisas. Que, aliás, voltaram a errar, embora o Ibope tenha chegado perto do resultado final na última consulta divulgada, no sábado que antecedeu às eleições.
Essas considerações que faço demonstram que o nível da consciência política do eleitorado de Salvador evoluiu. Elege quando acha que deve, e surpreende no voto quando entende de forma contrária. Foi o que aconteceu. Se certo estou, é um avanço resultante do amadurecimento democrático do País.
Para Nelson Pelegrino a derrota não foi apenas uma consequência natural de quem envereda pela carreira política. Ele se preparou para a campanha; iniciou-a com, aproximadamente, um ano de antecedência e seu sonho sempre foi governar a Capital, daí ter insistido quatro vezes, todas sem êxito. Mas essa que perdeu para Neto esperava ganhar e tinha razões para assim acreditar, firmemente, que conseguiria, porque os ventos estavam ao seu favor. Imaginava-se que somente perderia se errasse muito. Errou ele e seu partido, o governo, incluindo as lideranças que não levaram em conta as mudanças e do sentimento que varre a população da cidade e que, seguramente, aumentou depois da derrota sofrida pelo PT. É uma tendência que se registrou aqui e em outras capitais, com a eleição de uma geração mais jovem. Os mais antigos são chamados a abandonar o tablado diante da renovação geracional.
As consequências do resultado eleitoral passaram, primeiro, por Feira de Santana, segundo colégio eleitoral da Bahia, onde o ex-prefeito e ex-deputado José Ronaldo obteve uma vitória acachapante. Feira influencia os municípios vizinhos, enfim a região no seu entorno. Espraiou por outros grandes e médios municípios, como Ilhéus, Itabuna, Alagoinhas, Bonfim, Barreiras, e açoitou Vitória da Conquista, onde se esperava que o PT ganhasse em primeiro turno, por ser um dos seus primeiros e importantes redutos. O PT chegou a tremer no segundo turno.
Como resultado do acontecido na Capital, não fica fora do contexto a sua capilarização, interior adentro, nas eleições de 2014, que passam a ser uma incógnita muitíssimo maior do que se imaginava. Não dá, agora, como seria possível fazer, se outro fosse o resultado, iniciar conjecturas sobre candidaturas para as eleições gerais que acontecem em dois anos. O PT fica na condição de cabra-cega. Pode ter nomes falados, mas não possíveis candidatos, com menos intensidade, é certo. Ficou difícil. O governador Jaques Wagner terá que agir com muita cautela política, superando a sua inegável competência. E mais: terá que mudar a estrutura do seu governo (presume-se) e procurar dar uma “meia lua inteira”, coisa que se aprende na capoeira.
Quais os nomes que o PT poderia apresentar, num panorama visto deste final de ano? Citarei os que, antes das eleições, eram lembrados: Ruy Costa, José Sérgio Gabrielli, Walter Pinheiro e Otto Alencar. Dos quatro, qual teria condições de uma disputa para ganhar? Qualquer analista diria Otto Alencar ou Walter Pinheiro, que se empenhou na eleição de Salvador. Otto é líder e comandante do PSD, que tem vida política própria e se saiu muito bem nas eleições, na Bahia e no País. O problema é, mais uma vez o PT que, seguramente, não receberá bem tal candidatura. O partido recusaria a condição de coadjuvante, de aliado. Deixaria de ser o principal ator.
Está aí a principal consequência para 2014 da eleição de ACM Neto: o governo do Estado não é inalcançável.  A oposição fica em condições de lançar candidato ao governo (não citarei nomes) o que não teria se Pelegrino ganhasse. Assim, a partir de agora eles vão pensar.
Wagner também refletirá. Com a diferença de que, a partir de agora, ele tem um nó a desatar. Nó cego que determina mudanças. E, ainda, correr contra o tempo, apresentando realizações para reverter o que está aqui posto.  
* Coluna de Samuel Celestino publicada no Jornal A Tarde nesta quinta-feira (1º)