Coluna A Tarde: O PT perdeu e a oposição não ganhou

A desorganização das oposições baianas ficou evidente neste episódio de terror desencadeado por policiais militares que entregaram Salvador e as principais cidades interioranas do Estado à sanha criminosa de bandidos para cometerem todos os tipos de delito. De homicídios a saques e daí ao medo que desencadeou como se fora queda de dominós, estabeleceu-se uma boataria desenfreada. Ainda sentindo-se fragilizada, simplesmente a oposição fechou-se num silêncio incompreensível. Seria um momento apropriado à defesa da normalidade, condenação ao aprisionamento da população em suas residências e, por ter a manifestação forte conotação política, usar de igual modo um discurso político para exigir a ordem aos partidos no governo comandados pelo PT.
O movimento da PM, na verdade um motim, ou um levante, como queiram, feriu princípios constitucionais. Tem um comando desqualificado e profissionalizado, especializado, no entanto, em ações criminosas, como é o caso. Atingiu, porém, em cheio o PT e seus principais comandos, especialmente o candidato à prefeitura de Salvador, deputado Nelson Pelegrino. Além do governador Jaques Wagner que tenta, até aqui em vão, por ordem na casa abalada. Mesmo com a ação covarde perpetrada contra a população, a oposição não soube como agir.
Se fosse minimamente inteligente, os principais líderes partidários teriam se reunido para adotar uma posição forte, através de notas públicas em defesa da cidade, do Estado e seus cidadãos. Exigindo, ainda, decisões que não se esgotem na prisão das lideranças dos amotinados, mas, também,  um estado de paz. A Bahia de há muito vive uma guerra contra a violência. Aliás, os bandidos que lideram o motim são, indiretamente, responsáveis pelos saques, roubos, e o desvairado aumento de homicídios no Estado, especialmente em Salvador. Eles são cúmplices. Os oposicionistas não fizeram, no entanto, absolutamente nada. O possível candidato do agrupamento (ninguém sabe se será ou não) o apresentador Mário Kertész usou a sua rádio para condenar. E só. De resto, silêncio.
O comandante do PMDB, Geddel Vieira Lima, gravou uma entrevista de página inteira publicada em A Tarde no domingo passado, seguramente antes da desordem se instalar, e se fixou num ponto que entendeu como positivo para as oposições e, de fato, é: que o PT deseja o apoio do prefeito João Henrique “por baixo do pano”. Pelegrino ontem rebateu. O que se observa é que o prefeito não atravessa (nem a cidade) um momento de primor. Qualquer apoio que ofereça presumivelmente será para o candidato apoiado uma espécie de abraço de afogado.
Embora não dissesse na entrevista, é evidente que Vieira Lima pensou deste modo ao vincular o PT ao prefeito, ainda mais por saber que o candidato petista ficaria certamente em dificuldade para dizer que não aceita apoio e que não existe nenhum movimento de aproximação.
ACM Neto, nome do DEM que pode vir a se candidatar, se bastou com declarações que acabaram por não chegar, por falta de força, aos eleitores. Imbassahy só se manifestou na tarde de ontem. O principal líder do motim disse a um jornal do Sul que é filiado ao PSDB. Cumpre ao partido expulsá-lo imediatamente. Assim aconteceu que os oposicionistas viram passar um cavalo por sua porta, que não foi selado por eles, e não o montou. Incompetência? Falta de visão? Não souberam, sequer, elaborar um discurso que os deixasse bem com a opinião pública da cidade ou tudo isso junto. Uma clara demonstração de falta de talento político.
O levante criminoso causou um fortíssimo estrago nas forças petistas, estaduais e municipais. Nenhuma população, de qualquer cidade ou lugar, gosta de se sentir indefesa. O governador Jaques Wagner também foi vítima. É do seu dever investigar o que aconteceu com o aparelho de inteligência do seu governo. Pelas informações, praticamente ele só soube o que acontecia quando os amotinados estavam nas ruas, fechando-as e incentivando a bandidagem num “laissez faire,” ou senha para atiçar o crime em todas as suas modalidades
Uma ação bandida como pouquíssimas registradas em Salvador, com organização adredemente preparada e de dimensão espantosa (creio que nunca houve igual). O deputado Pelegrino também foi vítima do levante. Não merece. Isso porque a sanha criminosa atingiu, de igual modo, todas as classes sociais. E em cada residência de Salvador. Comentários nesse sentido se generalizaram misturados às boatarias. As críticas aos políticos atravessaram barreiras sociais para se acomodarem num sentimento de desordem por falta de ações ou decisões.
Se a oposição foi incapaz de assumir um discurso correto, de outro modo acentue-se que a violência que Bahia experimenta está latente em diversos estados da Federação, dentre eles o Espírito Santo e o Rio de Janeiro. Já aconteceu em Rondônia e no Ceará. O mal-estar nos quartéis das PMs, Brasil afora, emergiu aqui impulsionado, em parte, pela PEC-300, que reclama melhores salários para a polícia de todo o País, linearizando-as aos salários  pagos pelo Distrito Federal. Salários que, lá, são pagos pela União.
Acontece que os governadores que combateram a PEC não massificaram uma realidade crua: as unidades federativas não têm condições para pagar salários elevados. O Distrito Federal é a sede da República. Lá estão os três poderes, a Presidência do País e os ministérios. É necessário que se tenha uma polícia bem remunerada e eficiente. Não dá para estender o valor pago no DF a todas as unidades, principalmente as de orçamentos insuficientes como, por exemplo, unidades  nordestinas.
Enfim, enfim, aconteceu. O governo baiano e o PT perderam. E perderam muito. Está na boca do povo. E os oposicionistas não souberam ganhar.*Coluna de Samuel Celestino publicada no jornal A Tarde desta terça-feira (7)