Tribuna da Bahia – Bahia

O discurso do governador

09/07/2009

Ivan de Carvalho

Salvo melhor juízo, que não encontrei ainda quem o fizesse, foi um fato político de muita relevância o discurso pronunciado ontem pelo governador Jaques Wagner, na solenidade de entrega de ambulâncias a prefeituras do interior, no estacionamento da Sesab. O governador falou de problemas e de ações administrativas, mas, apesar da avaliação geral que fez e do próprio tom utilizado saírem da rotina, esta não foi a parte mais quente – ainda que até possa ter sido a mais importante, ou não, como diria Caetano, não o de Camaçari, mas o de Santo Amaro – do discurso.

O que chamou a atenção e produziu algumas reações públicas imediatas e muita conversa nos bastidores políticos foi a parte de desabafos ou advertências políticas no discurso. Um dos desabafos: “2010 vai chegar. Vamos desmascarar uma ruma de gente nessa terra que viveu de propaganda (cita números relacionados com serviços públicos). Calem a boca, mentirosos da propaganda falsa. 2010 vai chegar. Em dois anos e meio seria impossível resolver tantas porcarias, tantos trambiques nas contratações de serviços de limpeza, segurança e nas áreas da saúde e educação”. Um ataque incisivo ao passado – recentemente o governador comentara que seu inimigo nas eleições de 2010 seria “o passado”.

Mas terá sido somente o passado (governos que o antecederam e seus chefes e integrantes) os alvos do discurso? “Há controvérsias”. Ou melhor, não há. Porque também foram severamente advertidos “os apressados de agora” e agora é presente, não passado. Leiam o que foi dito em tom vigoroso e emocionado, que chegou a dispensar maiores cuidados com a pronúncia exata de algumas palavras e mesmo com um caso de concordância: “Os adversários de sempre e os apressados de agora. Estão muito enganados comigo. Tão muito enganados. Muito enganados. Tão muito enganados. Já disse pra não misturar minha educação, que aprendi com meus pais, minha humildade, que aprendi na caminhada da vida, com covardia. Na hora certa nós vamos se acertar”. O governador preferiu falar “no popular”, como se costuma dizer.

Quanto aos adversários de sempre, a identificação é fácil. O DEM à frente e os que estiverem sempre colados nele. Fica uma dúvida sobre o pessoal do PSDB, que não pode ser qualificado de “adversários de sempre”, pois foi aliado nas eleições presidenciais estaduais de 1986, quando apoiou a candidatura de Waldir Pires a governador, na eleição presidencial de 1994, quando apoiou Lula para presidente e opôs-se ao que hoje o governador chama de “inimigos do passado” na Bahia e apoiou o próprio Wagner nas eleições de 2006, passando a apoiar seu governo até há alguns meses atrás, quando, por causa da sucessão presidencial de 2010, aliou-se ao DEM. Não sendo “adversário de sempre”, também não faria sentido chamá-los de “apressados de agora”. Alguém vê sentido nisso? Ou, por acaso, alguém vê sentido em o governador, neste momento, qualificar assim a deputada Lídice da Mata e seu PSB por cobrarem uma das duas vagas na chapa governista para o Senado? O PSDB, como demonstrado, não é o caso e a ex-prefeita e seu partido não me parecem enquadrados no discurso do governador, ainda mais considerando os termos e conteúdos do discurso. Quem seriam então “os apressados de agora”? Ah, o PMDB. O governador não falou o nome nem a sigla, mas o PMDB está falando: fala que, pelo sentimento de suas bases, é praticamente certo que o ministro Geddel Vieira Lima, líder estadual da legenda, será candidato a governador. Bem, ontem reagiram desfavoravelmente ao discurso do governador o seu antecessor, Paulo Souto, presidente estadual do DEM e o presidente da União das Prefeituras da Bahia, o peemedebista Rodrigo Maia, que, no entanto, falou apenas pela entidade que preside. Aguarda-se para ver se algo tem a dizer o PMDB, que não está entre “os adversários de sempre”, mas pode ser o alvo da expressão “os apressados de agora”. Pode ser, pode ser…é.